Ame o Seu Corpo
Só sei do que não gosto!

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Vamos conversar um bocadinho?

Numa daquelas conversas que levam uns pozinhos de várias coisas, tentando a umas sugestões simples para que se sinta melhor consigo própria porque, contrariamente a algumas estratégias educativas antigas, isto de nos sentirmos insatisfeitos connosco não nos faz sentir motivados nem contribui em nada de interessante para o sucesso ou bem-estar humano.

Então vamos juntar os pozinhos desta nossa conversa. Todos nós operamos com base nalgumas regras para ajuizar sobre os acontecimentos e tomar decisões, regras essas que estão pré-programadas no nosso cérebro e nos simplificam imenso a vida. E, se simplificam, por um lado, porque a complexidade e imensidão da informação com que temos de lidar a cada minuto não nos permitiria uma análise detalhada, por outro, também nos conseguem complicar alguns temas que requeriam uma análise mais detalhada e realista.

Um exemplo dessas regras de que lhe quero falar chama-se heurística da disponibilidade. De uma forma simples significa que quantos mais exemplos tivermos sobre um assunto, mais provável é acharmos que essa situação vá ocorrer – se está muito disponível e no topo da nossa memória, deve ser porque é frequente. É uma boa regra instintiva – se é frequente chover no Inverno, não temos de pensar muito para nos equiparmos para a chuva assim que chegamos a Novembro. Mas se folheamos revistas e jornais, vemos filmes, captamos todos os anúncios que nos rodeiam, somos inundados de celebridades e do excepcional, então, num plano um pouco abaixo da consciência – porque se trata de uma regra que funciona abaixo da nossa percepção – vamos assumir que as pessoas de aparência impecável, beleza e juventude idealizadas, são a regra e o comum – a bitola pela qual nos podemos e devemos medir, para ajuizar o nosso valor de imagem pessoal.

 

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A heurística da disponibilidade também nos diz que não é só o conteúdo do que pensamos a propósito dos assuntos mas também a facilidade com que ele nos surge: se for muito fácil listar todas as partes do meu corpo que podem ser susceptíveis de requerer melhoria, então é porque tenho muito motivo de desgosto com a minha aparência corporal. E é fácil chegarmos a este ponto, actualmente, porque a venda de produtos e serviços é feita sobretudo com base nos chamados “pontos de dor” – parte-se de algo que possa estar a incomodar as pessoas, aumenta-se esse ponto de dor, para criar interesse na solução proposta que o elimina. (já reparou no desconforto das mãos secas? E como a pele fica envelhecida e feia quando não está hidratada? Agora já pode resolver isso com este creme de mãos!). Com tantos “pontos de dor” que nos são apresentados a propósito do nosso corpo, facilmente nos vem à consciência a conclusão de que estamos cheios de aspectos indesejáveis.

E isto piora um bocadinho, porque fomos e somos cheios de desconfortos sociais. Como assim? O ser humano é social e a sua integração no seu grupo – chamemos-lhe tribo – tem uma importância de sobrevivência. De um ponto de vista evolutivo, quem é rejeitado pela tribo não tem condições de sobrevivência e por isso a pressão interna para sermos aceites e estarmos conformes às normas daquilo que é desejável é elevadíssima para cada um de nós. E isto atinge o seu pico na adolescência – é quando o nosso corpo muda a uma velocidade incrível, ficando quase irreconhecível e, portanto cria-nos grande ansiedade. Como é também na adolescência que a identificação com um ou mais grupos é uma das grandes tarefas psicológicas, fica criada uma situação de grande intensidade: por um lado queremos desesperadamente ser bem vistos e aceites pelos nossos pares da tribo a que queremos pertencer, por outros sentimo-nos habitantes de um corpo que estranhamos. A sensação de inadequação corporal é muito forte nesta altura e cria grande ansiedade.

E pode piorar? Pode! Também estamos programados para recordar mais facilmente o que é negativo do que aquilo que é agradável.

 

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Bem, e então? O que podemos fazer para reverter esta situação e fazermos as pazes com o corpo?

Podemos fazer muitas coisas para não sermos levados pelos nossos automatismos de uma forma que em nada contribui para o nosso bem-estar. Seleccionámos algumas sugestões:

1. Substitua o hábito da avaliação negativa pelo do elogio, nomeadamente no que diz respeito à aparência pessoal. Comece pelos outros, porque habituando-se a funcionar com os outros de uma determinada forma, é muitíssimo mais fácil transferir esse hábito para si. Ao longo do dia, tome consciência daquilo que aprecia nos outros e que diz respeito à sua aparência corporal. Seleccione aspectos que são ajustados socialmente (não vai dizer à sua chefe que acha que tem umas pernas giras, certo?), e faça questão de os usar em elogios àqueles que a rodeiam. Progressivamente, comece a fazer o mesmo consigo: quando se arranja, de manhã, por exemplo, vá reparando e dirigindo a atenção especificamente para aspectos do seu corpo e aparência pessoal que lhe agradem.

2. Faça uma lista de 2 coisas que aprecia no seu corpo. Escreva cada uma num post-it e deixe-as bem visíveis num espelho aí de casa, para que seja lembrada disso frequentemente, e essa informação sobre si se torne presente e acessível.

3. Retire 30 minutos e sente-se com uma folha de papel em branco. Agora liste um mínimo de 40 aspectos do seu corpo de que não goste. Este exercício pode parecer paradoxal, mas está demonstrado que, se nos for difícil recolher informação suficiente que vá ao encontro de um juízo de valor, nós tendemos a achar que essa conclusão não pode estar certa. Estranho, hem? Mas funciona!

4. Lembre-se que a maioria das pessoas está insatisfeita com o seu corpo ou com aspectos específicos do seu corpo com os quais se sente desgostosa. Percebermos que não somos os únicos com um determinado tema, ajuda a retirar importância aos temas que nos angustiam

5. Substitua o tentar gostar de si pela aceitação de quem é, e assuma-se como uma amiga de si própria. Vamos praticar um bocadinho de gentileza consigo própria, mudando a autocrítica para uma relação útil e agradável consigo própria. Vamos ver como?

Passo 1: Escute o seu diálogo interno, reparando em todas as vezes em que está a ser crítica consigo mesma, a dizer mal de si própria. Procure pelos temas a propósito dos quais se critica mais frequentemente, as palavras específicas que tem tendência a usar, quando se torna mais activa, em que situações, em resposta a quê, e até mesmo o seu tom de voz interno quando faz juízos de valor negativos sobre si própria. Neste passo, pretende-se que tome consciência da sua conversa interna maledicente e mázinha consigo mesma e que detecte os padrões mais importantes.

Passo 2: Converse com essa sua voz crítica, agradecendo-lhe o facto de estar a tentar ajudar (porque está!), explicando-lhe que não está a correr bem, porque só a deixa a sentir-se mal e, portanto não está a cumprir uma função útil

Passo 3: Converse consigo como conversaria com uma grande amiga: com gentileza e um contributo útil. Por exemplo: “eu sei que estás muito desgostosa com essa celulite que se acumulou, mas olha que tu reparas muito mais nela do que qualquer outra pessoa, sobretudo porque a maioria das mulheres tem celulite. E o que achas do plano de ir fazer umas caminhadas diárias e usares um daqueles cremes que se massajam para ajudar a diminuir a celulite?”

Pratique esta substituição de uma voz que critica a sua aparência corporal e que já se tornou num hábito, desagradável e inútil, por uma voz prática e amiga e faça-o com frequência ao longo das próximas semanas para instalar um novo hábito, mais saudável e que a vai fazer sentir-se melhor consigo mesma.